sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Conto: Tarde demais

Um olhar mais desavisado se atreveria a pensar que era apenas mais um nascer do sol como outro qualquer, mas não era. Ele se levantou decidido, firme, como há muito tempo ninguém o via. Sentou-se na mesa da cozinha, com a xícara de café entre os dedos... deu dois goles e deixou o resto. Pegou sua caneta, seu papel,  respirou fundo e começou a escrever:

"Eu nem sei como te dizer isso, mas sinto sua falta. Eu sei que não tenho o direto de dizer isso, sei que fiz minha escolha ao te deixar pra trás,  mas é que dói tanto, a essa altura perceber que fiz a escolha errada e que não quero mais estar onde estou. Dói ter deixado junto contigo todos aqueles sonhos, todos aqueles planos e todas aquelas risadas. Dói ter deixado a vida passar e nem perceber, querer e não poder ter, sentir a alma secar.
Estou aqui pra dizer que te quero de volta, agora, já que não posso mais esperar. Venha e traga contigo toda aquela vitalidade, toda a doçura, toda a vontade de encarar o futuro de peito aberto. Venha que já não aguento mais viver de lembranças, num devajú que parece não ter fim.
Eu mereço mais uma chance, uma última chance e prometo que dessa vez farei tudo direito, ou errarei, mas errarei tentando acertar.
Te aguardo ansioso, de corpo e alma abertos. Faça o que quiser comigo, desde que me tire daqui. Rápido, urgente, agora ."

Voltou a pegar a xícara, virou garganta abaixo o resto de café,  dobrou o papel em que acabara de escrever e colocou dentro de um envelope. Estava orgulhoso de si mesmo por ter conseguido vencer o orgulho e escrever tudo o que escreveu. A parte mais difícil havia passado, agora restava-lhe descobrir como enviar a carta a si mesmo.

É, você percebe que cresceu quando sua alma grita para ter de volta a criança que um dia habitou seu corpo.











'Esta noite nós somos jovens
Então vamos colocar o mundo em chamas
Nós poderemos queimar mais que o Sol...
Leve-me para casa esta noite
Apenas leve-me para casa esta noite...' 
(Fun. -  We are young)