domingo, 21 de abril de 2013

Conto: Talvez...

“Alô? Oi, sou eu novamente. Já deixei pelo menos uma dezena de mensagens na sua caixa postal e você não responde. Se não quiser responder, por favor, pelo menos diga isso.
Ontem estava organizando umas coisas aqui e achei alguns livros e CDs seus. Quero que saiba que pode passar aqui para busca-los quando quiser. E se quiser, pode entrar e ficar um pouco, e pode me contar como vão as coisas, e podemos fingir que está tudo bem... só por uma noite.
Recebi uma proposta para trabalhar bem longe daqui, e vou aceita-la. Parto em dois dias e gostaria de você viesse logo, gostaria que você viesse me ver com a desculpa de que veio buscar suas coisas. É, seria muito bom.
Ontem assisti novamente a meu filme preferido, e pausei na parte em que o personagem dizia mais ou menos assim: “Nós aceitamos o amor que acreditamos merecer.” Aquelas palavras nunca fizeram tanto sentido. Eu sabia que não merecia seu amor, e por isso não lutei por ele. Achava, ou melhor, tinha certeza que você merecia alguém melhor. Mas hoje estou com medo, medo de que esse alguém não te ame pelos motivos certos. Pelos motivos que eu te amei. Ah, esquece. Nada disso importa mais.
Talvez o que eu tenha feito pensando ser amor não passasse de egoísmo disfarçado. E essa possibilidade me remói por dentro a ponto de me enlouquecer. Meu coração se agita como um animalzinho assustado, eu só queria poder pegar ele no colo e acaricia-lo indicando que ficará tudo bem. Mas a verdade é que ainda
estou tentando entender esse negócio de “ficará tudo bem”. Eu só não queria ter que esperar o final para que tudo fique bem. Eu só queria que tudo ficasse bem logo.
Um dia, quando estivermos velhinhos, provavelmente acharemos tudo isso uma grande besteira. Um dia, lá na frente, talvez nos olhemos sem a necessidade de fingir não conhecer um ao outro. Um dia, talvez, eu entenda porque me sinto tão sozinho mesmo rodeado de gente. Um dia, talvez, essa solidão não me assuste tanto.
Mas não quero pensar em nada disso por hoje. Só quero esquecer que eu sou eu e você é você. Só quero que, só por esta noite apenas o amor nos baste. E eu sei que você está escutando essa mensagem, sei que escutou todas as outras. Sei mais sobre você do que sei sobre mim. Só não sei como lidar com isso.
Mas se não quiser vir tudo bem, eu entendo. Eu sempre entendo mesmo nunca entendendo de verdade. A caixa com suas coisas ficará na recepção, peça ao porteiro. Lá tem alguns livros seus, alguns CDs de cantores que sempre odiei, algumas fotos que sobreviveram as noites de fúria e tudo mais que sobrou de nós.

Nós aceitamos o amor que acreditamos merecer...” talvez seja isso. Talvez eu não acredite merecer o amor de alguém, só preciso de tempo para entender isso.
Se cuida, por favor, se cuida. Prometo que vou tentar cuidar de mim.”

Maybe (tradução)
Kelly Clarkson

Sou forte mas me quebro
Sou teimosa e erro bastante
Sim eu sou difícil
E a vida comigo nunca é fácil
Para entender, para amar...
Estou entediada mas tão amável
Tudo que você tem que fazer é me abraçar
E  você vai ver
Quão doce pode ser.
Se você confiar em mim,
Me ame, permita-me
Talvez, talvez
Um dia quando estivermos no mesmo lugar
Quando estivermos na mesma estrada, quando não houver problema em segurar minha mão
Sem nos sentirmos perdido, sem todas as desculpas
Quando for só porque você me ama [...]
Você vai ver
Quão doce pode ser. ♪


domingo, 14 de abril de 2013

Resenha: A Culpa é das Estrelas

Antes de começar a discorrer sobre o livro proposto no título desta resenha convém alertar aos que se propuserem a continuar a ler: esta não é uma história de amor convencional, aliás, nem sei se posso chamar de história de amor. Esta é uma história de luta, com pitadas generosas de amor.
Nossa mocinha adoravelmente chata, encantadoramente bipolar e inesquecivelmente inteligente chama-se Hazel Grace Lancaster, ou se preferirem, apenas Hazel. Dezesseis anos e meio (ou trinta e três meios anos, como prefere sua mãe), leitora voraz e vítima terminal de um câncer na tireoide e pulmões, ganhou mais algum tempo de vida após passar por um tratamento experimental. Anda para todo lado com um cilindro de oxigênio acoplado a ela via cateteres no nariz, que fazem boa parte do trabalho de seus pulmões. Se destaca pela forma descontraída e muitas vezes até engraçada com que trata o câncer.
 Nosso mocinho, insuportavelmente convencido, igualmente inteligente e muito divertido chama-se Augustus Waters, ou simplesmente Gus. Dezessete anos, garoto bonito, ex-jogador de basquete e recém curado de um câncer (que o havia feito amputar uma de suas pernas).
Para Hazel Grace, parecia apenas mais uma reunião qualquer no grupo de ajuda à portadores de câncer ao qual frequentava. Mas a chatice da rotina foi rapidamente mudada quando Augustus aparece, a pedido de seu amigo Isaac, para conhecer o grupo. Após uma rejeição inicial, Hazel se rende aos encantos do jovem, que fica igualmente encantado pela garota.
Mas o que esperar de um relacionamento que pode ser interrompido a qualquer momento por ninguém menos que a morte? A resposta é simples: tudo! Desde sorrisos, passando por momentos fofos até dramáticos com direito a muitas lágrimas. A Culpa é das Estrelas não é um livro feito para os que esperam um “viveram felizes para sempre” como frase final. Muito pelo contrário, é mais seguro começar a ler tendo em mente um “e morreram felizes para sempre”. Embora eu deva lhes alertar que Hazel e Augustus odiariam esta frase no final de sua história. Eles não querem um “para sempre” como frase de efeito, querem apenas saber que viveram o melhor que puderam enquanto puderam. Se apenas soubessem quanto tempo é esse “enquanto puderam”...
Não desejo me dispor a citar vários trechos do livro nesta resenha, mas necessito faze-lo com uma parte em específico, uma das mais marcantes do livro (motivo pelo qual está transcrita na contracapa do mesmo):

“Não sou formada em matemática, mas sei de uma coisa: existe uma quantidade infinita de números entre 0 e 1.Tem o 0,1 e o 0,12 e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto ainda maior entre 0 e 2, ou entre 0 e 1 milhão. Alguns infinitos são maiores que outros. Um escritor de que costumava gostar me ensinou isso. Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Queria mais números do que provavelmente vou ter... mas Gus, você não imagina o tamanho da minha gratidão pelo nosso pequeno infinito.” (Hazel Grace Lancaster)

Continuar a citação a partir daí seria entregar a história, e não quero isso. Se tem uma coisa que aprendi com Hazel Grace e com Augustus Waters é que por mais que “sejamos todos efeitos colaterais” do universo, podemos ser lembrados para sempre se apenas fizermos valer o tempo que temos em nosso “conjunto ilimitado de dias”, transformando eles num “pequeno infinito”. Só não podemos pensar demais em fazer a diferença, pois pensar demais pode significar agir de menos, e agir de menos não muda nada.

John Green, autor do livro, conseguiu algo louvável: criar uma história previsível e imprevisível ao mesmo tempo. Você já pressupõe como vai terminar a luta de Gus e Hazel, mas não faz nem ideia de como será trilhado o caminho até lá. E a Culpa é das Estrelas nos fisga exatamente ai: na vontade, quase involuntária, de dar a mão à Hazel e segui-la por esse caminho. Não se contenha, dê a mão a ela e curta ao máximo esse “conjunto ilimitado dentro de um pequeno infinito”. Filosófico, engraçado, dramático e (im)previsível, A Culpa é das Estrelas é sem dúvida um livro que merece sua atenção e um lugarzinho especial na sua estante. Mostra que viver é uma luta diária, tanto para quem tem câncer, quanto para que não tem. Encerro esta pequena obra com palavras da própria Hazel: "Me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra." Faço destas palavras a descrição perfeita para o que senti ao ler o livro. Te desafio a ler e não sentir o mesmo.

Quem é Quem:
Hazel Grace Lancaster – Nossa Protagonista
Augustus Waters – Nosso Protagonista
Sr. e Sra. Lancaster – Pais de Hazel
Sr. e Sra. Waters – Pais de Gus
Isaac – Amigo de Gus e Hazel, vítima de um câncer que o deixou cego.
Mônica – Namorada de Isaac
Peter Van Housen – escritor de “Uma Aflição Imperial”, livro preferido de Hazel e que servirá como combustível para parte considerável da história.
Lidewij Vligenthart – assistente de Peter
Patrick – Líder do Grupo de Apoio a Crianças com Câncer
Kaitlyn – amiga de Hazel da época do ensino fundamental
Martha e Julie – meias-irmãs de Gus

Um pouco sobre o autor:
John Green é norte-americano, tem 35 anos e mora no estado de Indiana. De uns tempos para cá recebeu atenção especial da crítica por sua maneira divertida e simples de tratar os mais diversos temas em seus livros. Ganhou diversos prêmios, dentre eles a Printz Medal e o Printz Honor. Seus livros mais conhecidos são A Culpa é das Estrelas, Quem é você, Alaska? E Teorema de Katherine. ps: eu leria até a lista de compras de supermercado de Green (leiam o livro e entenderão esta frase).


Leia também: Resenha - O Teorema Katherine

Bônus: O livro virará filme. A escolha de elenco e os preparativos pré-produção já começaram. A jovem atriz Shaley Woodley, indicada ao Globo de Ouro (por Os Descendentes), já foi confirmada como Hazel Grace. Mais um motivo para você ler o livro antes de ver a história virar febre nos cinemas e sentir o gostinho de “eu conheci a Hazel e o Gus antes de vocês”.

Fontes:
Em primeiro lugar o próprio livro, é claro.

domingo, 7 de abril de 2013

Crônica: Papo Contemporâneo

Sempre me perguntei o que faria se tivesse a oportunidade de colocar a Vida na minha frente e aconselha-la a respeito dos caminhos a serem seguidos. É um pensamento meio Aristotélico, dá um nó na cabeça, mas acho que nossa conversa seria mais ou menos assim:

- Ei Vida, sente ai, vamos conversar. Quer beber algo? Não? Ok... eu quero uma dose de vodka por favor. Eu não sou muito bom em enrolação, você mais do que ninguém sabe disso, portanto vou direto ao assunto: não estou gostando nadinha da forma como você anda conduzindo as coisas. Até parece minha mãe, fazendo tudo sem me consultar, sem me ouvir ou perguntar o que acho e usando a desculpa que é pare meu bem. Sabe, por mais legal e bonitinho que seja fazer tudo certo sempre, às vezes só o que o ser humano precisa é de uma boa e velha trapalhada, daquelas que deixam marcas... tais marcas tem a única e exclusiva função de nos mostrar que estamos vivendo. Tem certeza que não quer beber nada? Está bem, está bem... e pare de me dar lição de moral, é  sexta feira, as pessoas costuma se divertir nas noites de sexta sabia? Ah, esqueci, você sabia... sabe de tudo. E porque, então, é tão difícil colocar em prática? Desculpe, me exaltei. Bem, como eu estava dizendo... o que mesmo que eu estava dizendo? Ah, lembrei! Bem, eu te chamei aqui para que nós resolvamos, amigavelmente, o que é melhor para mim, afinal você é a maior interessada no assunto. Para começar trate de me transformar numa pessoa mais impulsiva, pois detesto pensar demais; Foi por pensar demais que hoje penso demais no que não fiz por pensar demais compreende? Espero que sim... Continuando: quero que me transforme numa pessoa menos emotiva, estou cansado de ver poesia em tudo... é como se eu estivesse preso a um eterno lirismo que condena minha alma a ser sensível e sofrer mais que as outras pessoas... ESSA NÃO! VOCÊ FEZ DE PROPÓSITO! PARE DE RIR! Detesto que riam de mim. (respira rapaz, respira) Pois bem, já me recompus. Onde eu estava? Ah sim, também quero que você me transforme num cara mais cafajeste. A figura de bom moço até que é bonitinha na teoria, mas não se aplica ao mundo do século XXI. Impulsivo, Insensível, Cafajeste... será que esqueci de algo? AH É CLARO! Como pude me esquecer do principal? Quero que converse com seu amiguinho, seu best friend chamado Destino e fale para ele parar com essa mania irritante de mudar meus planos encima da hora. Quem ele pensa que é para
me manipular feito uma peça de xadrez? E você, por quê essa cara de deboche? Tem algum palhaço aqui? Vamos, fale algo criatura! Desculpe, me exaltei novamente. Deve ser o efeito da vodka... Só não quero que pense que sou ingrato, pois amo viver. Apenas não estou feliz no momento, e quando digo ‘momento’ me refiro a um bocado de tempo. Só queria que você me ouvisse mais, e que, pelo menos uma vez, demostrasse interesse no que eu desejo. Até porque minha felicidade significa a sua felicidade, e vice-versa. Te amo, quer dizer, me amo, quer dizer... ah, estou confuso... sou confuso. Se não for pedir demais gostaria de não ser mais assim. Preciso ir agora, amanhã trabalho cedo. Você não costuma falar muito não é? Tudo bem, obrigado por ter me ouvido, já é alguma coisa. Espero chegar em casa e não ir correndo escrever meia dúzia de versos sobre o quanto o amor nos faz sofrer. Se eu chegar, for direto para a cama sem sequer tirar os sapatos e cair num sono profundo já será um grande avanço. Caramba, que frase inspiradora, preciso coloca-la no papel. Até breve.


E eu provavelmente sairia correndo, chegaria em casa, colocaria meu CD preferido para tocar e escreveria um mundo de versos sobre amor e suas desdobras. Dai eu me tocaria do que acabara de fazer e começaria a gargalhar freneticamente. Olharia para cima e sussurraria: obrigado Vida, pelo menos o pedido da felicidade você já atendeu.