terça-feira, 21 de maio de 2013

Crítica: Somos tão Jovens

A quase cinebiografia de Renato Russo e a questão da 'liberdade poética' no cinema

Somos tão Jovens é um filme brasileiro, de 2013, escrito e dirigido por Antônio Carlos da Fontoura e protagonizado por Thiago Mendonça. Trata-se da história de Renato Manfredini Júnior, posteriormente conhecido em todo o país como Renato Russo. O filme retrata o final da juventude e inicio da vida adulta de Renato - desde o desenvolvimento de seu gosto por rock até a formação da banda Legião Urbana. O filme se passa na cidade de Brasília, entre o final dos anos setenta e início dos oitenta.
A capital federal, ainda em formação cultural, era considerada um tédio pela juventude que lá vivia. Com a tentativa de tornar o dia-a-dia mais atraente, jovens com gosto musical parecido passaram a se reunir em bares da cidade para beber, fumar, discutir sobre música e "puxar um som". O jovem Renato, até então universitário e professor de inglês, foi introduzido neste mundo de música, álcool e drogas. Dai a formar sua primeira banda, o Aborto Elétrico, é um pulo... mas deste pulo até a formação da maior banda de rock nacional muita água corre por debaixo da ponte. Somos tão Jovens se propõem a guiar fãs e leigos por esse rio, com doses de drama, humor e muita música.
O filme, como toda produção, tem acertos e deslizes. Dentre os deslizes, vale destacar as atuações meio forçadas e pouco convincentes de Daniel Passi (como Flávio Lemos, amor platônico de Renato) e de Leonardo Villas Braga (como Hermano Viana). Falando tecnicamente, em alguns momentos a câmera treme demais, dando um certo amadorismo ao longa. A bissexualidade de Renato também é pouco explorada na trama, o máximo que se viu foram trocas de olhares e abraços. Mesmo esse não sendo o foco principal da produção, algo mais intenso daria mais profundidade à história.
Mas é importante destacar que os pontos fortes do filme são muito maiores que os fracos. A escolha de Thiago Mendonça para o papel de Renato Russo é um acerto enorme. Além da semelhança física com o cantor, Thiago incorpora o personagem de uma forma tão bacana que absorve inclusive gestos e entonações de Renato Russo. Até Dado Villa-Lobos, ex Legião, se impressionou com a atuação dele: "O Thiago interpreta o Renato de forma tão real. Há um certo impacto em vê-lo." conta em entrevista ao Estado de S. Paulo. É preciso destacar também que Thiago cantou todas as músicas ao vivo durante a gravação. Para isso, foram necessários cerca de três meses de aula de canto e violão. Tanto esforço e dedicação resultaram num personagem convincente sem parecer forçado.
Laila Zaid teve uma missão difícil nas mãos: dar vida a única personagem da história que não existiu. Se por um lado os outros atores puderam se preparar vendo vídeos sobre seus personagens e conversando com pessoas que tiveram contato com eles (e muitas vezes conversando com os próprios), Laila precisou entender o que era sua personagem para só então dar vida a ela. Ana Cláudia, ou simplesmente Aninha é, segundo o próprio autor, uma mistura de todas as garotas que passaram pela vida de Renato durante o período que o filme retrata e tiveram alguma importância na formação do cantor. A atriz se saiu bem, convenceu, emocionou e foi um porto seguro para Renato.
Quanto ao resto do elenco, todos desempenharam sua função dignamente. Desde os pais de Renato, interpretados por Sandra Corveloni e Marcos Breda, até os integrantes da banda.
Desde que Somos tão Jovens estreou, murmurinhos de fãs descontentes com a produção são frequentes. Aproveito esta questão para falar um pouco sobre a liberdade poética que cineastas tem ao produzirem. Não é justo ir ao cinema esperando um documentário sobre Renato Russo sabendo que se trata de uma obra ficcional; aos que quiserem assistir  fatos reais recomendo o documentário Rock Brasília. Antônio Carlos da Fontoura nos quis apresentar a história de um jovem excessivamente inteligente vivendo num mundo insuportavelmente limitado e que viu na música uma oportunidade única de se libertar, ou pelo menos tentar. E o diretor cumpre seu papel, mesclando ficção com realidade e criando uma obra agradável. Desde já deixo minha recomendação: não assistam o filme acreditando que ele explorará veridicamente a vida inteira de um dos maiores cantores do país pois não irá. A intenção de Antônio Carlos é despertar interesse, testar possibilidades e propor teses (ora comprovadas, ora não) de porque Renato era quem era. Conforme o personagem Renato diz no início do filme: "Se o mundo real for como eu vejo, eu prefiro acreditar no mundo como eu sonho." E que mal há em sonhar?

Classificação: Bom (entre ruim, regular, bom e ótimo)

Laila Zaid e Thiago Mendonça,
como os amigos  Aninha e Renato

Hora do Café:

Conversei com quatro universitários sobre o que eles acharam do filme e o que pensam sobre a mistura de ficção e realidade no enredo de Somos tão Jovens. Nenhum deles viveu na "Geração Coca-Cola" mas conhecem Renato Russo e estão sob a  influência de sua obra até hoje.
Eles são: Thaís Santos (19 anos), Michael Coelho (20 anos), Náliny Andrade (19 anos) e Amandha Baptista (18 anos).


VOCÊ GOSTOU DE SOMOS TÃO JOVENS? POR QUÊ?
Thaís Santos
Thaís: Eu gostei de Somos Tão Jovens não só por apreciar as músicas e a história do Renato Russo, mas pelo filme mostrar desde sua adolescência até o momento em que ele entra no Legião Urbana. O mais legal é que o diretor não precisou mostrar a história do Legião para fazer do filme um verdadeiro sucesso. Os devaneios de Renato, o jeito sonhador e a vontade de crescer como músico faz do filme algo que prende o telespectador e o próprio fã. A atuação de Thiago Mendonça foi tão parecida com a que Renato tinha nos palcos, que muitas vezes durante os filmes era fácil confundir os dois. O jeitinho de cantar e o modo de falar que o ator fez, foi um dos pontos principais do filme. Outro ponto que acho fundamental ser falado é que o filme não foi para mostrar um cantor idealizado, bonitinho e astro do rock/punk, mas sim um Renato que assume para a mãe a homossexualidade, mostra um temperamento difícil de conviver e vive momentos egoístas (um exemplo é quando ele grava algumas confissões que Aninha faz pra ele, causando ira na moça).

Michael Coelho
Michael: Achei o filme interessante por retratar como começou a ideia de montar uma banda, não abordando somente o auge da carreira de Renato como em outros filmes que retratam a carreira das bandas e cantores focando no sucesso.

Náliny: Eu gostei, mas fui ao cinema com uma expectativa e saí decepcionada. Achei que o filme é extremamente rico em detalhes sobre a situação política do país, isso a equipe conseguiu retratar com detalhes. Quanto ao Renato cantor e compositor, não conseguiram fazer com que a história fosse natural. Já como revolucionário, o personagem foi muito bem estruturado.

Amandha: Gostei em algumas partes, mas poderia ter demonstrado mais acontecimentos na história. Já que o diretor fugiu na realidade, podia ter incrementado mais a história. Ao meu ver, ficou um enredo frio, sem um objetivo, além de ser um pouco confuso para quem não conhece Renato. Porém, algumas pessoas estão pensando que essa foi a verdadeira história de Renato, e acabam criticando sem fundamentos o Renato ou o diretor/roteirista.

COMO VOCÊ LIDA COM A QUESTÃO DA 'LIBERDADE POÉTICA' QUE O CINEASTA USOU AO RETRATAR A VIDA DE PESSOAS QUE JÁ EXISTIRAM MESCLANDO REALIDADE COM FICÇÃO?
Náliny Andrade
Thaís: Sou a favor (do uso da licença poética) desde que a história não fuja do foco principal. Quem assiste o filme, dificilmente percebe que Ana realmente não existiu na vida real, mas a história é tão envolvente e, em certos momentos, fofa, que não tem grande importância saber isso.

Michael: Não sou a favor e nem contra, pois muitas vezes precisa utilizar esse recurso para deixar a história mais emocionante e cativar o público, exemplo do filme "Bastardos Inglórios". Por outro lado têm pessoas que não conhece a vida da pessoa retratada no filme e acaba acreditando fielmente no enredo.


Amandha Baptista
Náliny:  Com o uso da licença poética a "moral da história" se confunde. Não dá pra saber o que o roteirista quis mostrar... se a realidade do Renato, ou se a história da banda. Eu não gostei da "unificação"/criação da Aninha. Acho que quem descobre (como eu) que ela é semi-fictícia depois de ver o filme, fica com a sensação de vazio. A Aninha, dentro do enredo foi importante, e segundo o filme, uma das músicas mais bonitas, foi escrita para ela.

Amandha: Bom, eu fui a favor. Mas, como eu conheço um pouco da vida de Renato, não interpretei Renato como hipócrita, pois sei que essa era um pouco da " essência" dele. A imagem dele não foi retratada como deveria realmente ser, mas acho que o diretor quis fugir do óbvio, do que a maioria sabe. Enfim, o que mais me emocionou, foi ou vir as músicas dele e a emoção que ele tinha de simplesmente cantar e demonstrar seus sentimentos através das músicas. Por mais que eu sabia disso, ver nas telas foi bem legal e bonito.




Se você ficou curioso e quer conferir o filme ainda dá tempo. Somos tão Jovens está a três semanas em cartaz e já levou mais de 1 milhão de pessoas aos cinemas nacionais. Já assistiu? Conte o que achou!


Fontes:
Jornal O Estado de S. Paulo, edição de 02 de maio de 2013 (Caderno 2)
Dados sobre os nomes dos atores do elenco: Wikipédia
Fotos: Divulgação.

domingo, 12 de maio de 2013

Poema: Eu te amo como amo o outono (parte I)

As duas da manhã  acordei assustado
Te procurei mas não te vi ao meu lado
Pra me fazer dormir, pra me fazer sonhar...
Então chorei.

As oito da manhã  tomei meu café doce e amargo
Do jeito que você costumava fazer
Fui invadido por lembranças ingratas do que fui e não consigo mais ser...
E assim fiquei.

As duas da tarde  passei em frente ao banco que costumávamos sentar
O mesmo que naquele dia você jurou me amar
E hoje está vazio...
Lá sentei.

As oito da noite  senti o frio chegar
A solidão me abraçar
E preencher meu vazio...
Eu orei.

Eu te amo como amo o outono
Como amo o alaranjado do céu
Como amo a natureza coberta por um véu
Como amo sol e frio andando juntos de mãos dadas.

Eu te amo como amo o outono
Te amo como amo calor humano 
Amo como amo ver as folhas das árvores caindo no chão
Te amo assim como os outros amam o verão

Eu te amo como amo o outono
Como amo todo o mistério por trás da espera
Mesmo sabendo que jamais chegaremos à primavera
Vou te esperar.

As duas da manhã  finalmente me deitei
E ao seu lado da cama travesseiros coloquei
E seu nome e apelido a todos eles eu dei...
E adormeci.

Eu te amo como amo o outono
Como amo todos os meus versos, hora profundos, hora dispersos
Eu te amo como amo o outono
Mas já não sei mais se quero amar.

O inverno chegou. o silêncio impera.
O inverno chegou, as flores murcharam
O inverno chegou
E chegou pra ficar.

E chorei
E sentei
E fiquei
E orei.

E vou continuar a esperar.