terça-feira, 27 de agosto de 2013

Conto: Fernando, Mariana e as estrelas

O nome dele era Fernando. Fernando tinha fama de desligado, e era verdade. Ele simplesmente não ligava para isso. Ele gostava de observar coisas que os olhos das demais pessoas não observavam. Suas melhores amigas eram as estrelas. Ele as amava, de verdade. Nomeou cada uma delas, cada uma das que conseguia enxergar. Gostava do inverno quando, apesar do frio, o céu estava limpo. E naquele dia estava. Aquela confusão organizada de astros boiando numa imensa e vaga cortina azul-marinho era a melhor definição de vida que alguém poderia escrever. Mas as pessoas não ligavam para nisso.
Ele estava boiando. Boiando numa imensa e vaga cortina azul-marinho sem expectativa de chegar a qualquer lugar que fosse. Uma vez ouviu num filme uma frase que gostou muito: "As vezes acho que não nasci pra vida real". Foi a melhor definição dele mesmo já feita por outra pessoa. Ele não havia nascido para a vida real. Era sonhador demais. Mas tentava. E tentava. E tentava. Deu seu máximo para construir uma ponte que ligasse o abismo que separava expectativas de realidades. Mas a distância era grande demais. Pobre garoto.
Certo dia, depois da escola, foi para o parque. Deitou naquela grama verde e ficou brincando de fazer poesia com as coisas que apareciam.
Era tão fascinante brincar de ser poeta que acabou perdendo a noção do tempo. E anoiteceu. E ele simplesmente sorriu. Era hora de conversar com as estrelas.
Ai ela apareceu. Mariana. Dentro do peito de Mariana o universo tinha o tamanho do seu coração. Mas as pessoas também não ligavam pra nisso.
Mariana deitou-se ao lado de Fernando, no gramado verdinho do parque, no frio do inverno e ali ficou. Não disse nada por um bom tempo. Apenas apontou para o céu e sorriu. 
Fernando sentiu que precisava quebrar o silêncio. Não o silêncio imposto pela atmosfera. Mas o silêncio em que mergulhara sua vida até então. E falou: "É Aline" "Oi?" "Aline, aquela que você apontou chama-se Aline. E aquela ao lado dela é sua irmã, Dora". Fernando ficou com medo de Mariana não amar suas amigas. Pior, ficou com medo dela não as enxergar. Mas Mariana enxergou. Enxergou e passou a amar Aline, Dora e todas as suas novas amigas como se fossem parte de si. E eram.
Mariana e Fernando passaram a se encontrar no parque todas as noites para contar às estrelas o que de poético haviam feito no dia. Fernando passou a amar Mariana tanto quanto amava Dora, Aline e suas amigas estrelas. 
Mariana também tinha brilho próprio. Ela sabia como brilhar apesar do escuro. Apesar do escuro do mundo. Fernando enxergava isso. Ele não havia nascido para o mundo real, ela também não.
Ai, numa noite qualquer, o céu estava nebuloso demais para que se enxergasse qualquer coisa do imenso manto azul marinho. Mesmo assim os dois deitaram-se no gramado do parque. Fernando virou-se para Mariana e apenas a observou. Ele agora tinha sua própria estrela. 
A ponte que estava construindo para ligar expectativas à realidades foi, enfim, demolida. Não tinha mais o menor interesse em cruzar essa fronteira.
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Algo a mais:
Um dos melhores versos que Fernando compôs enquanto esperava pelas estrelas ficou assim:

Dedicado à Aline, Dora e todas as minhas amigas. De Fernando.

"Não é justo achar que observamos as estrelas
Pois a verdade é que elas nos observam 
A todo instante, basta anoitecer.
Faço meu melhor para que elas assistam a algo interessante
Mesmo sabendo que não há quase nada de interessante na humanidade.
Não espero aplausos, apenas que continuem brilhando para mim.
Apenas que continuem brilhando para mim."

Referências:
A personagem Mariana é de propriedade de um amigo meu, Gustavo Nascimento. Se você quer conhecer mais sobre a Mariana e sobre o trabalho do Gustavo clique aqui: Blog Páginas Avulsas. Desde já agradeço pela gentileza de permitir que Fernando e Mariana se encontrassem;
A frase a qual faço referência no texto é do filme "Desconstruindo Harry" (Woody Allen, 1997).
Ah, o Fernando, esse sim é minha criação. Ou sou criação dele... a verdade é que ainda não sei direito.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Poema: Dois ponto zero

Um ponto nove.
Meia-noite.
Dois ponto zero.
Zero.
Hora de zerar tudo.
Hora de (re) começar.
Hora de parar de fazer hora.

Aos sonhos... persistência.
À persistência... paciência.
À paciência... recompensas.
Ao coração partido... um novo amor.
A um novo amor... carinho.
Aos planos futuros... coragem para realizá-los.
Às feridas do passado... tempo.
Ao tempo... vida.
À vida... saúde.


Dois ponto zero mais dois ponto zero mais dois ponto zero...
E que não seja só matemática.
E que seja química, física, biologia, filosofia...
E literatura.
Para que eu possa continuar rabiscando
Pra eu mesmo ler
e  achar ruim
e mesmo assim mostrar a alguém
que achará uma graça.

E que a vida seja cheia de graça.
Porque o mundo já anda sombrio demais.
De resto, é estender a alma no varal
para que as mágoas sequem.

Não há mais tempo há perder.
Nem possibilidade de alívio.
Eu sei que não pegarão leve.
Mas estou preparado.
Sou um herói só por estar vivo
E continuar lutando
Pra me tornar infinito.

Traga a garrafa
Que hoje eu vou beber.
À vida... um brinde.




terça-feira, 13 de agosto de 2013

Resenha: Extraordinário

"Não julgue um livro (menino) pela capa (cara)."

Ao terminar de ler as 320 páginas de Extraordinário fiquei algum tempo pensativo. De repente todas as vezes que briguei com o espelho por causa a minha aparência pareceram uma enorme bobeira. Há gente com problemas físicos muito mais sérios e que mesmo assim mantêm a cabeça erguida e encaram a vida de frente.
Extraordinário conta a história (fictícia) de August Pullman, um garoto de dez anos que nasceu com uma grave deformidade no rosto. Mesmo após passar por incontáveis cirurgias a aparência de seu rosto era considerada "assustadora". Auggie, como é chamado, é fã da saga Star Wars e sempre foi superprotegido pela família. Nunca havia frequentado a escola, mas seus pais acham que já era hora de mudar essa situação, afinal, mais cedo ou mais tarde ele teria que encarar o mundo com todas as suas crueldades e... doçuras. Como já era de se esperar, o começo dessa nova experiência não é nada fácil. Mas Auggie sabia que não era difícil apenas para ele, afinal qualquer ser humano tem dificuldades de encarar o novo. Auggie não queria ser popular, muito menos amigo de todo mundo, só queria ser tratado como alguém normal. Já no começo do livro o garoto desabafa: "A única razão de eu não ser comum é que ninguém me enxerga dessa forma... talvez  a única pessoa no mundo que perceba o quanto sou comum seja eu."
Um dos grandes acertos do livro é mostrar como as dificuldades de uma deficiência física afetam não só a quem é deficiente mas também a todos que, de certa forma, convivem com aquela pessoa. A autora tem uma maneira bastante peculiar de nos contar a história: o livro é dividido em oito partes, cada uma narrada pelo ponto de vista de um personagem. O mais interessante é que muitas vezes, a mesma situação é descrita novamente, sob o ponto de vista que outra pessoa, o que pode mudar completamente o sentido daquilo. As partes são:  Parte I August, Parte II - Olivia (Via), Parte III - Summer, ParteIV - Jack, Parte V -  Justin, Parte VI - August, Parte VII - Miranda e Parte VIII - August. Os capítulos são geralmente curtos, variam entre uma e três páginas, o que pode estimular crianças (e adultos) a ler. Apesar de tratar de temas espinhosos como o bullying e a intolerância (não só por parte dos alunos do colégio como também de alguns pais) o livro é divertido, emocionante e de uma linguagem simples.
Para finalizar, como diria o professor Browne, "quando tiver que escolher entre ter razão e ser gentil escolha ser gentil", afinal, é a forma como tratamos as pessoas que faz a diferença, e respeitar o próximo é a melhor maneira de ser alguém realmente Extraordinário.

Um pequeno vídeo promocional foi produzido pela editora para introduzir a história. Para quem se interessar:



Principais personagens:
August Pullman (Auggie) - nosso protagonista
Isabel e Nate Pullman - pais de Auggie
Olivia (Via) Pullman - irmã de Auggie
Summer e Jack Will - amigos de Auggie
Charllotte, Max 1, Max 2 e Julian - colegas de classe de Auggie
Miranda e Ella - amigas de Olivia
Justin - namorado de Olivia
Sr. Buzanfa - diretor da escola de Auggie
Sr. Browne - professor de Auggie

Dados:
Livro: Extraordinário
Escritora: R. J. Palácio
Editora: Intrínseca
Ano: 2012
Nº de páginas: 320

Sobre a autora:
R.J. Palacio é uma designer gráfica que trabalha em editoras de Nova York há mais de vinte anos. Em 2012 realizou um sonho: publicar seu próprio livro. Livro que foi feito com todo o cuidado para tratar de temas completamente delicados e sempre atuais: o bullying nas escolas e o respeito às diferenças. R. J. mora em Nova York e para dar continuidade à luta contra o bullying além do livro criou também uma conta no blog Tumblr: www.choosekind.tumblr.com, que conta com milhares de acessos diários.

Fontes:
Usei como fontes o próprio livro e a  página do livro no site da editora Intrínseca. As fotos também são de lá.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Crônica: A Vida não é um episódio de Skins

Uma crônica sobre a Effy, a Carolina e o azar


Seis e meia da manhã. Acordei atrasado. Fui dormir tarde. Estava vendo Skins. Sonhei com a Effy. Pulei da cama e tomei um banho rápido. Cabelo mal penteado, roupa meio amassada. Olheiras do tamanho do meu cansaço. Dois goles de café amargo, dois não, três. Um beijo na mamãe. "Leva guarda-chuva pois vai chover", gritou ela. Não levei, a moça da previsão do tempo disse que não choverá. Cheguei no ponto de ônibus vinte minutos atrasado, o bendito já estava virando a esquina. Outro só daqui a dez minutos. Deveria ter tomado meu café com calma. Reparo numa garota linda sentada no banco do ponto, sentei ao seu lado. Agora já tenho a quem olhar enquanto o busão não chega. Ela me olhou. Eu sorri. O busão chegou. Eu entrei. A garota também. E mais uma dúzia de pessoas. E mais uma dúzia no ponto seguinte. Vinte minutos atrasado. Vinte minutos amassado. A garota bonita havia se perdido no meio da massa humana. Ou talvez já tenha descido. Carolina, era esse o nome dela, Carolina. Sei disso porquê quando ainda estávamos no ponto ela atendeu o celular e disse "Aqui é a Carol, Carolina". Ah, Carolina. Ah amores de busão. Tão rápidos e tão intensos. Meu ponto chegou. Corre rapaz, corre que São Paulo tem aversão à lerdeza! Hora do metrô, mais empurra empurra. Nenhuma garota tão bonita quanto a Carolina. Ah, a Carolina. Sai do metrô. Corre! Meu chefe vai me matar! Vou botar a culpa no transporte público. Não é só pelos vinte minutos. Dou bom dia a todos. Pelo visto não foi só eu quem teve uma noite ruim. Deve ser mal de segunda-feira. Sento na minha mesa, ligo o computador. Cumpro a agenda. Ligações. E-mails. Textos. Tédio. Hora do almoço. Aviso que vou almoçar. Barriga roncando. Fome. O tempo muda. Começa a chover. Praga de mãe. Nunca mais confio na moça do tempo. Chego na frente do restaurante. Um cara passa correndo ao meu lado e esbarra em mim. Caio no chão. Ele leva minha carteira. Volta a chover. Deve ser meu inferno astral. Volto ao escritório. Molhado, sujo, com fome e sem grana. Meu chefe me chama. Corro pro banheiro tentar me arrumar. É tarde demais, lá vem ele. Começo a explicar o que aconteceu. Ele ri. Me empresta dinheiro. É um cara legal. Me arrumo novamente. Troco de restaurante. Entro num que não conhecia. Procuro uma mesa vazia. Nenhuma. No fundo do local há uma pessoa sentada sozinha. Me aproximo. Olá, posso dividir a mesa? Ela se vira. É ela! É a Carolina. Claro. Sento. "Olá, me chamo Carolina". "Eu sei". Como? Quer dizer... não sei. Ah, sim. Sim. Ela ri. Descobri que é publicitária. Tem vinte e dois anos. Um ano mais velha que eu. Trabalha ali perto. Mora no mesmo bairro que eu. No dia seguinte almoçamos juntos novamente. No outro também. No outro ela não estava lá. No outro ela estava triste pois havia terminado o namoro. No mesmo eu a consolava. No outro ela já não estava mais triste. No outro bebemos juntos. No outro jantamos juntos. No outro também. No outro fomos ao cinema juntos. No outro transamos. No outro a pedi em namoro. No mesmo ela aceitou. No outro estávamos assistindo Skins.  Ela disse que a Effy é bonita. Eu respondo que ela é mais. Effy me desculpe, era verdade. Nos beijamos. Ah, Carolina. Bendita noite que passei acordado vendo a Effy. Bendito busão atrasado. Bendito ladrão de carteiras. Bendita chuva. Bendito chefe. Bendito azar. É rapaz, a vida não é um episódio de Skins. Mas quando quer consegue ser ainda mais interessante.

#GoodbyeSkins