terça-feira, 22 de outubro de 2013

Crítica - Gravidade

Impossível não ficar tentado a assistir Gravidade após ler as inúmeras críticas positivas ao filme. Neste fim de semana fui conferir a produção dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón, em 3D. 
Com o auxílio do 3D mergulhamos na aflitiva aventura do experiente astronauta Matt Kowalski (Geoge Clooney) e da engenheira espacial Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) que, após terem sua nave atingida por uma chuva de destroços espaciais, se veem a deriva no espaço. E quando digo "à deriva" estou falando de forma literal, à deriva pela imensidão azul sem gravidade portando apenas suas roupas especiais de astronauta e um restinho de oxigênio. Passamos a perceber então o quão instável é o ambiente fora do Planeta Terra.
O que segue-se pelos próximos 70 minutos é uma sequencia de cenas intercaladas entre o silêncio absoluto e barulho intenso. Aliás, a exploração do silêncio para transmitir emoção é um dos pontos chave desta produção. Créditos para Steven Price, o responsável pela trilha sonora.
A fotografia, assinada pelo experiente Emmanuel Lubezki (A Princesinha, O Novo Mundo, e A sua mãe Também) é um show à parte. Algumas cenas do nosso planeta visto sob o olhar dos personagens são de tirar o fôlego.
George Clooney é o alívio cômico da história (talvez um pouco acima do tom). Sua maior missão é tentar fazer com que Ryan não perca as esperanças de sair viva da situação (o que aquela altura parecia improvável). Clooney sai de cena antes da metade do filme, passando para Bullock a missão de carregar sozinha  a história rumo a um desfecho. E ela se sai muito bem! 
George Clooney em Gravidade
Aclamado pela crítica e sucesso absoluto de público, Gravidade já é praticamente garantido em pelo menos duas categorias no Oscar 2014: Melhor Diretor (Alfonso Cuarón) e Filme do Ano. Isso sem contar as prováveis indicações nas categorias técnicas. Quem sabe não rola até uma indicação para Bullock? Ela merece. Resta-nos esperar até 16 de janeiro, quando sairá a lista oficial dos indicados.
Gravidade pode ser considerado uma experiência cinematográfica completa. Cuarón consegue puxar o expectador para dentro da história, o clima permanente de tensão te faz perder o ar junto com os personagens e querer agarrar qualquer coisa estável quando os personagens tentam fazer o mesmo. Esta é uma das raras ocasiões em que a tecnologia 3D é fundamental para mergulhar no filme, porém, se não tiver acesso a ela assista em 2D mesmo, afinal, conforme bem disse a personagem de Sandra Bullock no filme: "De qualquer forma será uma experiência incrível!"

Confira abaixo o trailer do filme:



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Poema: Universo Particular

'A Lua' (1928), Tarsila do Amaral

Em uma página em branco
ele desenhou o nascer do sol do jeito que queria que fosse
colou no tronco da árvore
e ficou ali apreciando sua paisagem artificial.

No chão de concreto
pegou um pedaço de giz
desenhou flores e grama do jeito que queria que fossem
e ficou ali deitado sobre seu gramado artificial.

Na parede suja de seu quarto 
desenhou um coração
e dentro dele colocou as fotos dos que queria que ali estivessem
e ficou admirando seu enorme coração artificial.

Antes de deitar em sua cama pequena e de colchão duro
desenhou no teto todas as estrelas que conseguiu desenhar

e passou o resto da tarde ali, 
fitando seu universo particular.

Saiu até o lago mais próximo
com uma vara e um anzol na mão.
Se prostrou na beira do rio 

e atirou a linha o mais longe que conseguiu.

De isca usou o que de mais doce tinha,
um restinho de subjetividade empoeirada sob camadas de frustração.
Ficou ali, imóvel por horas
tentando capturar qualquer coisa que tornasse a realidade mais palpável.

Quando sentiu a linha puxar,
agarrou-a com força e deu um tranco para trás.
O que quer que ele houvesse figado puxou com tanta força
que o derrubou no rio.

Um rápido agito.
Três suspiros.
Calmaria...
Não havia mais artificialidade.



observação: Quem é o menino? O que representam a vara e o anzol? O que representa o lago? Fica no ar para reflexão. O quadro escolhido para ilustrar esses versos é da pintora brasileira Tarsila do Amaral e chama-se 'A Lua'.