sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Conto: Garoa fina

Garoa fina cai lá fora. Janela entreaberta, ar frio soprando para dentro. Minha xícara de café forte na mão, moletom folgado, olhar desconfiado para as gotas molhando a vidraça. Por onde andarás? Será que está se protegendo do frio? Sempre foi tão descuidado...

O barulho das chinelas se arrastando por entre os corredores vazios do apartamento. Ando inquieto, em todos os sentidos. Pego o telefone, de novo, e ameaço discar os oito dígitos, aqueles oito números que me separam da sua voz. Paro no sétimo. Bato o telefone com raiva como se ele tivesse culpa da minha covardia. Não. É como se eu quisesse dividir com ele parte da culpa por minha covardia para aliviar meu fardo. Inútil.

Ontem encerrei um período realmente longo de bloqueio criativo. Não me pergunte como, simplesmente acabou. Como nuvens negras que pairam sobre o céu e que tempos depois simplesmente se desintegram em água. Meus bloqueios geralmente se desintegram em versos. Ou em você, dá no mesmo. Fato é que escrevi, escrevi tanto que não consigo mais ver papel e caneta na minha frente. Isso deve explicar porque estou andando pela casa e falando sozinho numa tarde fria e chuvosa de outono. Será que estou ficando louco?

Que seja. Loucura em doses medicinais pode fazer bem à alma. E a minha, bem, a minha anda precisando de remédios.

Lá fora, a garoa fina continua molhando o chão no mesmo ritmo, fraco e constante. Ótimo, a cidade precisava ser regada. Os novos prédios que brotam do chão precisam de água para crescer e desabrocharem em grandes flores cinzentas. Renovar a paisagem. Mais do mesmo. Tanto faz.

 Às vezes penso em ir embora, deixar tudo para trás. Aprisionar neste velho apartamento da Rua da Consolação todas as minhas mágoas, bloqueios criativos, cheiros e lembranças. Jogar a chave fora, atirá-la da janela do vigésimo andar para que ela se perca no labirinto de ruelas e avenidas da selva de pedras. E para que ninguém mais a encontre. Mas não. Este pensamento passa rápido e segundos depois considero-o uma imensa bobagem. Não viveria sem isso aqui, sem tudo isso aqui.

E não viveria sem você, sem o que você deixou aqui, invisível mas presente. "Você está se auto-sabotando", dizem. Talvez.

É patético admitir, mesmo que seja uma auto-confissão. Mas tudo bem, admito: eu preciso disso, dessa melancolia toda, desse cinza enlouquecedor, da garoa fina lá fora, do barulho dos chinelos arrastando pelo apartamento vazio, varrendo com eles um restinho de esperança. Eu preciso disso. Preciso dessa angustia que vai e volta no ritmo das chuvas. No final das contas, é meu combustível. Me condicionei a viver assim.

Deixar tudo para trás significaria deixar-me também. Ou o que restou de mim. E não estou afim. Sou teimoso, eu sei. Você me conheceu assim. Mas não estou reclamando, não mais. Estou conformado. E o conformismo, entre casos e casos, é a linha tênue entre vencer na vida ou ser vencido por ela. Não sei se vencerei na vida, seja lá o que isso signifique. Mas não me deixarei ser vencido por ela. Faremos companhia um ao outro, neste velho apartamento abarrotado de lembranças numa cidade onde as lembranças estão sempre por baixo d’um manto cinza. O que importa é a jornada, não a chegada.

Garoa fina cai lá fora. Janela entreaberta, ar frio soprando para dentro. Minha xícara de café forte na mão, moletom folgado, olhar desconfiado para as gotas molhando a vidraça. Por onde andará? Eu continuo aqui, no mesmo lugar. Fiquei.

Talvez esteja na hora de deixar o sol entrar. É. Talvez.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Resenha: Quem é você, Alasca?


O primeiro amigo, a primeira garota, as últimas palavras...



Quem acompanha o blog sabe que sou fã incondicional de John Green, o cara é realmente bom. Já lhes apresentei aqui três dos quatro livros dele publicado no país (A Culpa é das Estrelas, O Teorema Katherine e Cidades de Papel). Chegou a hora do último que faltava: Quem é, você Alasca?

Como é de praxe, o livro é protagonizado por um adolescente impopular. O desta vez chama-se Miles Halter, que ganha o apelido de Gordo (apelido irônico, já que ele é alto e magricela). Gordo está prestes a
iniciar o segundo ano do ensino médio no colégio interno Culver Creek (seu primeiro ano lá), e está apavorado. Ele tem uma habilidade curiosa: o de decorar últimas palavras. Isso mesmo, aquelas últimas palavras que alguém diz momentos antes de morrer, Gordo sabe das de uma infinidade de personalidades.


Ao chegar a Culver Creek ele conhece seu primeiro amigo, Chip Martin, ou como todos os conhecem: Coronel. Coronel introduz Gordo na vida social do colégio, dividido em grupos (coisa comum em produções americanas). Ele, é claro, está no grupo dos impopulares que são repugnados pela "elite" colegial.


Num destes passeios, nosso protagonista é apresentado a Alasca Young, garota baixinha, bastante bonita, de nome estranho e chamativos olhos claros. Alasca é uma anti-heroína, o que faz com que o leitor a aproxime de pessoas comuns. Ela bebe, fuma, xinga (e como xinga!), se esforça numas disciplinas, passa raspando em outras e por ai vai. Só havia um pequeno detalhe: tinha namorado, um cara mais velho que não estudava no Culver. Isso não impediu o coração de Gordo de ficar completamente encantado por ela. Na verdade, chega a ser um fascínio. “Ela tinha namorado. Eu era um palerma. Ela era apaixonante. Eu era irremediavelmente sem graça. Ela era infinitamente fascinante. Então eu voltei para o meu quarto e desabei no beliche de baixo, pensando que, se as pessoas fossem chuva, eu seria garoa e ela, um furacão." É a primeira garota que causa tal efeito no jovem. Alasca sabe do fascínio que causa em Gordo e nos demais garotos. E quase sempre usa isso a seu favor...


É neste cenário, um colégio interno da Flórida, que Gordo, Coronel e Alasca desfrutam de tudo o que a adolescência tem direito. Vivem em busca do "Grande Talvez", o ponto-chave que daria sentido a suas vidas. Tudo corre bem, e como é costumeiro entre os adolescentes, eles se acham invencíveis, até que... até que algo acontece no fim da primeira parte do livro e faz com que o subtítulo da obra faça sentido completo.



A forma como Quem é você Alasca? foi estruturada é bastante interessante. A primeira parte do livro é dividida em dezenas de pequenos trechos que levam nos subtítulos datas insinuando uma contagem regressiva. (Quarenta e cinco dias antes... trinta e dois dias antes... e por ai vai). Quando a contagem chega no zero o grande desfecho do livro acontece e tem-se inicio a segunda parte, desta em vem contagem progressiva (um dia depois... dez dias depois... etc).

John Green faz aqui a melhor demonstração de seu talento narrativo. O livro é tão bom quanto A Culpa é das Estrelas, mas consegue sobressair-se na forma como a história foi contada. É claro que o desfecho causa polêmica e não agradará a todos. Mas no final das contas, o que mais chama atenção nas histórias de Green não são seus finais e sim o caminho percorrido até lá. Vale a pena acompanhar Gordo, Coronel e Alasca na contagem regressiva rumo ao evento que mudará para sempre a história dos três.



"Quando os adultos dizem: 'Os adolescentes se acham invencíveis', com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos [...] Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e de fracassar [...] A verdade é que, se pararmos de desejar que as coisas perdurem para sempre não iremos sofrer quando elas desmoronarem."

Livro: Quem é Você, Alasca? (Looking for Alaska)
Autor: John Green (2010)
Editora Martins Fontes (230 páginas) 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Entretenimento: Looking


Novo seriado da HBO tem como plano de fundo a vida GLS de San Francisco




Entre o final dos anos 90 e inicio dos anos 2000 dois seriados balançaram a televisão americana (e consequentemente mundial): Sex and the City e Qeer as Folk. Completamente diferentes um do outro, o primeiro tratava da vida de quatro amigas de meia idade em busca da realização profissional e pessoal em Nova York. O segundo mostrava a vida de um grupo de amigos homossexuais de Pittysburgh, suas desventuras amorosas e a luta para ter uma vida o mais normal possível apesar do preconceito. Qeer as Folk é considerada por muitos como a melhor série homossexual já produzida.

(Da esq. para a dir. Augustín, Patrick e Dom)

Quase uma década depois, San Francisco, na Califórnia, é cenário de uma nova série gay: Looking, exibida pelo canal HBO2. O motivo de ter mencionado Sex and the City no inicio desta matéria é que podemos dizer que Looking é um Qeer as Folk "sexandecityzado". Com menos personagens e um número bastante reduzido de cenas de sexo explícito (em relação a QaF), a produção da HBO tenta atrair a atenção do público mostrando como vive um grupo de amigos gays e de que forma enfrentam seus desafios profissionais, amorosos e pessoais.

A história gira em torno dos amigos Patrick (Jonathan Groff), Augustín (Frankie J. Alvarez) e Dom (Murray Bartlett). O primeiro é um designer de games de 29 anos, o segundo um artista de 31 anos e o terceiro, bem mais velho que os demais, é um cozinheiro de 39 anos que tenta dar um novo rumo a sua vida e se livrar dos vestígios de um antigo relacionamento. Augustín morava com Patrick mas resolveu se mudar para a casa do namorado e Dom vive com uma amiga. Em comum, os três estão frustrados com a profissão e em constante questionamento acerca dos relacionamentos amorosos.


Já caminhando para o quinto episódio, Looking se mostra interessante de acompanhar, embora ainda não tenha conseguido mostrar definitivamente a que veio. Provavelmente até o fim da primeira temporada (que terá oito episódios) as histórias já estarão sólidas o suficiente para uma análise mais definitiva sobre o futuro de cada personagem. O cenário GLS - sem todos aqueles clichês batidos - rende muito pano pra manga, só depende do olhar atento dos roteiristas trazer isso em favor da produção. De qualquer forma, é bom saber que, dez anos após Qeer as Folk, um seriado gay ainda consiga chamar a atenção. Estamos "de olho" em Looking.

Looking
(2014/ 1ªTemporada/ HBO2)
Exibido em dias alternados, fique de olho no site da emissora.
Para assistir aos episódios anteriores legendados clique aqui.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Volver


Escrever é basicamente encontrar as palavras certas, ou melhor, deixar que elas te encontrem - a tal da inspiração. Eis-me aqui, confiante de ter encontrado as palavras certas para ter uma conversa com vocês, uma conversa sobre o passado, ou melhor, uma conversa sobre voltar atrás.

Construímos uma vida inteira baseada no que projetamos para nosso futuro. Somos ensinados desde pequeninos a olhar sempre em frente, cabeça erguida, o que passou passou. O que fomos ou fizemos já não interessa mais... será mesmo?

Presente e futuro nada mais são que uma soma de consequências - a curto, médio, ou longo prazo. A verdade é que a vida é muito mais passado que futuro, nós somos mais passado que futuro. E quanto mais futuro nos é dado menos futuro temos, mais passado nos é acrescentado. Porque dar as costas a isso?

Eu costumava esconder minhas fotos antigas, costumava não falar sobre as pessoas com quem me relacionei, costumava evitar lugares que gostava e que hoje não gosto mais. Estava tudo lá, guardado no "bauzinho de coisas que não valem a pena lembrar". Mas aquilo tudo fui eu, aliás, o que sou hoje é consequência do eu mal vestido, cheio de espinhas e com gosto musical duvidoso de seis, sete anos atrás. Fiz as pazes com esse "eu", ele agora é bem vindo em minhas lembranças. Se tem uma coisa que é essencial para que o futuro aconteça é estar em paz com o passado. Ninguém alça voo com as asas presas.

Errar é sempre algo ruim, que nos frustra. Quando estamos determinados a correr em direção ao futuro e algo sai dos eixos, sentimos uma vergonha enorme de admitir que falhamos. Mas gostaria de dizer que não há vergonha nenhuma em voltar, em refazer, em se desculpar. Quase sempre podemos voltar atrás, mas na maioria das vezes ignoramos isso. Nenhum caminho, plano ou decisão é tão irremediavelmente definitivo assim.

Muitas vezes voltar atrás significa abrir mão do tal futuro que projetamos para nós. Toda ação gera reação, e não é possível refazer caminhos sem gerar consequências.  Pensar nisso já nos apavora. É normal, somos programados para ter medo do desconhecido. Mas se a vida é mais passado que futuro, e se o presente é a resposta mais rápida às consequências dos seus atos, para que depositar todas as suas cartas num futuro que pode estar destinado a ser infeliz? Arcar com as consequências da mudança pode ser menos doloroso que a sensação eterna de que poderia ter sido diferente mas não foi. Pior do que falhar é insistir no que não funciona, e se existe uma verdade naquilo a respeito de "pensar no futuro", é que ele é totalmente moldável, muda a todo instante, e nós somos a peça chave desta mudança. Aperte o "play", não se esqueça do "pause" e lembre-se de que existe o "back to", ele poderá ser a resposta às suas perguntas. Não se envergonhe de precisar voltar atrás se isso significar melhorar seu presente. Até porque, de uma forma ou de outra, passado e presente são as maiores certezas da sua vida, talvez esteja na hora de parar e conversar com eles.