sábado, 19 de abril de 2014

Análise - Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Sensível e delicado, primeiro longa de Daniel Ribeiro conquista o público por sua simplicidade


Uma sala de cinema lotada. Jovens e pessoas mais velhas, solteiros e casais. Este era o ambiente quando fui assistir “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, filme do jovem diretor Daniel Ribeiro baseado em seu premiado curta-metragem de 2010 chamado “Eu não Quero Voltar Sozinho”. A proposta inicial de Daniel era fazer um filme que não fosse tachado como “homossexual” e que pudesse levar os mais diferentes públicos ao cinema. Parece que ele conseguiu.

O filme conta a história de Leonardo (Ghilherme Lobo), um jovem cego de nascença que se apaixona por um aluno novo da classe, Gabriel (Fabio Audi). Léo é melhor amigo de Giovana (Tess Amorim), que é visivelmente apaixonada pelo amigo mas fica balançada pelo novo colega. Está formado o triângulo amoroso que dá forma a história. Mas não se enganem, esse nem é o maior foco do filme. O maior chamariz da história talvez seja a busca incessante de Léo por mais liberdade, num ambiente onde ele é superprotegido pelos pais e sempre tratado com cuidados especiais pelos outros. Isso fica evidente numa cena quando o garoto conversa com Giovana: "Você não gosta da sua personalidade?", pergunta ela."Gosto, mas o problema não sou eu", responde Léo.

Todas as características de um filme adolescente estão presentes em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho: incertezas, descobertas, amizades, brigas, tudo isso potencializado por hormônios à flor da pele. O mais interessante é que a questão da descoberta sexual de Leonardo nunca foi um tabu para ele. A última sequencia do filme (que arrancou aplausos eufóricos da plateia) deixa isso bem claro. Outro ponto importante que leva a reflexão é o fato de um garoto cego – que nunca viu meninos nem meninas – se apaixonar por outro garoto, simples assim. Daniel Ribeiro talvez queira nos mostrar que o amor é realmente algo simples assim, questão de sentir. Talvez todos esses rótulos que adoramos sair colando por ai não sirvam de nada, porque amor, no final das contas, é inrotulável.

Boa parte das cenas do curta está no longa, embora algumas tenham sido mudadas para se adaptarem ao roteiro. As questões técnicas do filme também não deixam a desejar; Até neste aspecto Daniel optou pela simplicidade. Poucos cenários, poucos atores e uma história simples, mas que foi o suficiente para prender o espectador nos cerca de 90 minutos de filme. Vale destacar a bela trilha sonora que vai desde Cícero (Vagalumes Cegos) e Marcelo Camelo (Janta) até Belle & Sebastian (There's Too Much Love) Beethoven e Bach.

Ghilherme Lobo é um “achado”. Consegue interpretar tão bem um deficiente visual que por vezes nos faz questionar se ele realmente não é cego. Fabio Audi continua tímido e delicado – mesmas características do curta e que ainda não sei se são do ator ou do personagem. Mas o que importa é que faz um personagem adorável. Tess Amorim evoluiu bastante desde o curta-metragem e ganhou espaço. Há uma cena impagável em que ela “toma um porre” e desabafa com Gabriel sobre os problemas que andam afligindo sua vida.

Sensível e delicado, Hoje eu Quero Voltar Sozinho é um filme sobre amor, simples assim. Mostrando que o cinema nacional tem sim algo a mais que comédias pastelão, a película anda conquistando plateias e prêmios ao redor do mundo (como o Teddy Bear, em Berlim) e está em cartaz em cerca de 56 salas pelo Brasil. Levou mais de 33 mil pessoas ao cinema em sua estreia e ainda promete conquistar muito mais gente. 


''A gente tem que falar as coisas que a gente sente, não adianta deixar guardado.'' (Gabriel)

"Se você roubasse um beijo de alguém, como você faria para devolver?" (Gabriel)

"Você não gosta da sua personalidade?" "Gosto, mas o problema não sou eu" (Gi e Léo)




Filme: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (BRA/2014)
Diretor: Daniel Ribeiro
Elenco: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Selma Egrei, Isabela Guasco.

NOTA (27/06): O filme já foi disponibilizado online neste site: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (online)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sobre o que falo quando falo sobre amor

a·mor |ô| (latim amor-oris) - substantivo masculino: 
1. Sentimento que induz a aproximara proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição, .atraçãogrande afeição ou afinidade forte por outra pessoa; 2. Sentimento intenso de .atração entre duas pessoas. = PAIXÃO 3. Ligação .afetiva com outremincluindo geralmente também uma ligação de cariz sexual.
4. Ser que é amado5. Disposição dos .afetos para querer ou fazer o bem a algo ou alguém. 


Desta vez farei diferente. Não usarei eu-lírico ou qualquer tipo de personagem para escrever estes versos. Sou eu, eu mesmo, em todas as palavras. O título do texto é baseado num livro de contos de um escritor americano chamado Raymond Carver. Dito isso, vamos lá.

Sempre acreditei que eu deveria ser o tipo de pessoa que gostaria de ter ao meu lado. Por um longo tempo me apeguei a esse preceito esperando que as coisas acontecessem, assim mesmo, naturalmente. Um esbarrão, uma troca de olhares, um truque do acaso meramente articulado por forças maiores (destino, vida, Deus, ou seja lá o nome que isso tiver). E não me importava quantas vezes a vida tentasse me impor caminhos contrários, eu sempre usava unhas e dentes para endireitar o curso que acreditava ser o mais natural. Mas de uns tempos para cá endireitar os caminhos tem se tornado algo pesado demais. Era para ser mais leve não era? 
Pior é quando as pessoas dizem que você mudou, e que o problema está em você. Eu sei disso. Tenho plena consciência de todos os demônios que preciso exorcizar, de todos os fantasmas que preciso afastar e de todos os nós que preciso desfazer. Não preciso que ninguém me diga isso. Há algo de profundamente estranho nas pessoas, elas acham que você precisa estar sorrindo o tempo todo. Tristeza faz parte da vida, é dura porém necessária. Em certo ponto da vida, esboçar sorrisos falsos torna-se cansativamente desnecessário. Quando falo sobre amor falo sobre saber lidar com a tristeza, seja ela sua ou não.
Em períodos assim, é comum focarmos no que não temos. Não é ingratidão. É que certos vazios só podem ser preenchidos por aquilo que foi feito para preenche-los. Não se pode preencher um vazio de amor com doses extras de carinho. Alivia, mas não resolve.
No meu mundo "quase normal" (expressão usada por um certo alguém uma vez), faltam lacunas. Lacunas que só podem ser preenchidas por aquilo que foi destinado a elas. Queria tanto que as pessoas entendessem isso...
Minha visão de amor sempre foi assumidamente idealizada. Daqueles românticos mesmo. O que anda pesando é o caminhar por essa linha tênue entre manter as convicções e acreditar no futuro ou jogar tudo para o alto e refazer os planos. 
Quando falo sobre amor falo sobre projetos planejados, não "puxadinhos". Falo sobre o amanhã, não sobre o ontem. Falo sobre dar exatamente o que recebo, não ficar servindo de estepe. Falo sobre poder ser livre, mas me prender por vontade. Falo sobre ser leve, e saber agir quando não for.
Quando falo sobre amor falo sobre alguém, o que não significa que esse alguém não possa mudar. Quando falo sobre amor falo sobre mudar, e torço para que mude. Quando falo sobre amor falo sobre menos cobrança e mais flores, mas poesia, mais fantasia. Quando falo sobre amor falo sobre menos realidade. Falo sobre a verdade, sobre cumplicidade. Falo sobre laços criados para durar.

Foto: Paulo Dias
Quando falo sobre amor falo sério.
Falo alto.
Falo francamente.
Grito.

Mas as vezes acho que estou falando sozinho...

De todos os clichês do mundo, aquele que fala sobre o poder do tempo é um dos mais batidos, e mais verdadeiros. Deixemos então que o tempo aja. Ele há de agir. E falaremos sobre amor juntos, por ai, mais adiante. Por hora, me reservo no direito de ficar calado. Já falei demais.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Jornalismo porque sim, mãe!

07 de Abril - Dia do Jornalista
Era uma vez um garotinho que adorava escrever. E levava isso a sério. Tirava sempre as maiores notas da turma e lia até panfletos de supermercado. Esse garotinho foi crescendo e agregando ao amor pelas palavras outros amores complementares – pela música, pelo cinema, pelas artes, pela história, pelas pessoas... Colecionando amores que não se conflitavam, apenas se completavam. E ai – sei lá por ideia de quem – chegou a hora de o garoto escolher apenas um de seus amores para “amar pelo resto da vida.” Não foi fácil. O garoto pensou, pensou, escolheu, ‘desescolheu’, elegeu, ‘deselegeu’ e não chegou a lugar algum. Num desses dias, que parecem apenas um dia qualquer, o garoto tropeçou naquela palavra, naquilo que diziam ser profissão, no jornalismo. E soube, simplesmente soube que era ela, a tal profissão para “amar pelo resto da vida”. Jornalismo porque era interessante. Jornalismo porque era útil aos outros. Jornalismo porque permitia ao garoto juntar todos os amores de sua vida sem precisar optar por apenas um. Jornalismo porque sim, mãe.

Feliz dia do jornalista a você que é “apenas” jornalista. Feliz dia do jornalista a você que é jornalista e poeta. A você que é jornalista e assessor de imprensa. A você que é jornalista e cozinheiro. A você que é jornalista, músico e tudo mais que vier. Talvez eu não seja “apenas” jornalista pelo resto da vida – e provavelmente não serei. Mas uma vez jornalista, jornalista pra sempre. Com muito orgulho. Porque sim, mãe.

07 de Abril - Dia do Jornalista