sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Aquele que não virá

(para ser lido ao som de Magic, do Coldplay)

Os convidados já foram, a comida acabou, o vinho está quente e o café esfriou. Livre-se destes sapatos que machucam seus pés, tire esse vestido de festa, limpe a maquiagem.
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Pobre menina crescida, quem dera pudesse fazer com que a ilusão fosse menos sofrida, quem dera pudesse fazer com que a vida cinza fosse enfim colorida. Quem dera tivesse esse poder. Não tem.
Chega de sonhar com o beijo que não será dado. Chega de aguardar pelo telefone que não tocará. Chega de planejar os detalhes do tão esperado dia. Chega de imaginar a fisionomia da sua felicidade. Chega de esperar por aquele que não virá.
Se a solidão insiste em sua porta bater, deixe-a entrar. Aceite sua companhia, chame-a para dançar. Permita que ela te conduza, feche os olhos e flutue. Dois pra lá, dois pra cá. Faça da sala vazia teu palco. Transforme teus pés em armas. Potencialize seu vazio em ritmo, gire com gosto o mais forte que puder. Estenda-lhe a mão, entrelacem os dedos. Mova sua cabeça, mexa seu cabelo, balance-o como nunca antes, em todas as direções. Aumente a música, não deixe seus pés pararem. Liberte-se do que te aprisiona, liberte-se dessa ilusão que você mesma criou. Ele não virá. Ele sequer existe. Aceite seu destino. Eis o momento de abrir os olhos.
Agora deixe que a solidão conduza-a até a cama. Deite-se menina crescida, deite-se e durma o sono dos justos. Descanse a alma e repouse o corpo. Durma sem carregar a culpa por aquilo que foge a seu alcance. Durma sem esperar por companhia. Baste-se. Amanhã será um novo dia. Ainda há muita vida pela frente menina crescida, ainda há muita vida pela frente.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Lista: O cinema em sete cores

Sete filmes de sete países diferentes que tem a homossexualidade como tema principal



Apesar de ainda patinar, é cada vez maior o número de filmes que se propõem a discutir a homossexualidade em suas histórias. E não é apenas no exterior que observa-se essa tendência, nosso Brasil também caminha - mesmo que a passos curtos - rumo a uma ampliação da discussão sobre diversidade sexual na sétima arte. A partir de agora vamos conhecer sete filmes de sete países diferentes que tem gays como protagonistas e tentar entender um pouco melhor como cada um aborda a questão.


Juste Une Question d'amour (em pt: Apenas uma Questão de Amor / FRANÇA, 2000)
O filme francês do diretor Christian Fauré conta a história de amor entre Laurent (Cyrille Thouvenin) e Cédric (Stéphan Guérin-Tillié). Laurent é um jovem de 23 anos, filho exemplar de uma família conservadora, é homossexual mas não assumiu para seus pais. Cédric, por outro lado, é assumido e lida sem problemas com sua sexualidade. O ponto alto do filme é tentar mostrar não só o lado de quem está saindo do armário mas também como é complicado para algumas famílias lidar com isso.

Shelter (em pt: De Repente Califórnia / ESTADOS UNIDOS, 2007)
Dirigido por Jonah Markowitz, Shelter é um dos filmes de temática gay mais famosos do mundo. Leve e solar, o filme tem excelente trilha sonora, belas paisagens e um roteiro bem amarrado. Tendo San Francisco como plano de fundo, o filme conta a história de Zach (Trevor Wright), um rapaz que se vê forçado a colocar seus sonhos em segundo plano para assumir o papel de "pai" de seu sobrinho pequeno, já que sua irmã Jeane (Tina Holmes) não tem o mínimo de responsabilidade. Apesar de namorar com uma garota, Zach não consegue se entregar completamente à relação. Algo em seu coração muda quando Shaun (Brad Rowe), irmão mais velho de seu melhor amigo, volta a morar na cidade. Shelter é elogiado principalmente por mostrar que dois homens podem formar uma família e construir um lar tão saudável para uma criança quanto um relacionamento heterossexual.


Weekend (REINO UNIDO/2011)
Weekend, dirigido por Andrew Haigh, é um filme marcado pela simplicidade estética. Os protagonistas, Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New) se conhecem numa balada de sexta a noite e todo o filme se passa nas próximas 48 horas. Longos diálogos e pouquíssimos cenários fazem com que a história lembre bastante o filme Antes do Amanhecer, só que numa versão gay. Weekend mostra que  um relacionamento pode ser bastante intenso mesmo durando poucas horas,

Out in the Dark (em pt: Além da Fronteira / ISRAEL, 2012)
Em tempos de conflitos violentos no Oriente Médio, este filme do diretor Michael Mayer não poderia ser mais atual. Conta a história de amor entre o estudante palestino Nimr (Nicholas Jacob) e o advogado israelense Roy (Michael Aloni). Se a homossexualidade nesta região já é um tema espinhoso, a tensão é multiplicada por mil já que estamos falando de dois povos historicamente inimigos. E está tudo presente na película: religião, história, conservadorismo e no meio disso tudo... o amor. Mas será que amor é capaz de superar tantas dificuldades? Só assistindo para saber a resposta.

Hawaii (ARGENTINA/2013)
O filme dirigido por Marco Berger segue a mesma linha minimalista do já citado Weekend. Eugenio (Manuel Vignal), um escritor atormentado pelo fim de um relacionamento, resolve se isolar na casa de campo onde passou boa parte da infância. Lá reencontra um velho amigo, Martin (Mateo Chiarino), e aos poucos retoma a amizade que tinha com o rapaz. Amizade que logo se transforma em amor. Mas amar não é tão simples, requer coragem... Hawaii tem como grande trunfo a química incrível entre os dois protagonistas. O final é confuso mas satisfaz o principal desejo de quem assiste o filme.

Jongens (em pt: Garotos / HOLANDA, 2014)
O filme holandês do diretor Mischa Kamp foi feito especialmente para a televisão. Trata do descobrimento da homossexualidade ainda na adolescência e como o processo de assimilação desta descoberta pode ser bastante confuso. Sieger (Gijs Blom) e Marc (Jonas Smulders) são dois garotos de 15 anos que se conhecem durante as aulas de educação física e descobrem aos poucos que o que sentem um pelo outro talvez seja mais que amizade. O roteiro não é nada excepcional, mas é uma história fofa e gostosa de se assistir. 

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (BRASIL/2014)
O último filme desta lista, mas não menos importante, é o belíssimo filme brasileiro dirigido por Daniel Ribeiro e baseado no curta metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Mesmo tendo sido produzido com baixo orçamento, o drama levou mais de duzentas mil pessoas aos cinemas nacionais e já conquistou mais de uma dezena de prêmios, inclusive o Teddy Bear, em Berlim. Conta a história do adolescente cego Leonardo (Ghilherme Lobo) que, apesar de nunca ter enxergado, se apaixona por seu colega de classe Gabriel (Fabio Audi). O roteiro é simples mas de uma eficiência como poucos. Em cerca de uma hora e meia, Daniel Ribeiro dá seu recado com louvor: o amor desconhece barreiras. (mais sobre Hoje Eu Quero Voltar Sozinho AQUI).


bônus: Shelter foi o filme escolhido para representar os Estados Unidos nessa lista, mas não posso encerrar essa matéria sem citar outro filme americano importantíssimo e que gerou bastante discussão: Orações Para Bobby. Dramático do começo ao fim, este filme é obrigatório na lista de quem se interessa pelo tema pois mostra as consequências devastadoras que podem surgir da união preconceito + fanatismo religioso. Voltarei a falar de Orações para Bobby aqui, com todos os detalhes que o filme merece, mas por hora me detenho a este pequeno lembrete.

Existem muitos outros filmes interessantes que abordam a homossexualidade (Brokeback Mountain, Milk, Plano B, etc). E já que este tema rende bastante, em breve farei uma nova lista com mais sete filmes, fiquem de olho. E você, tem algum filme para indicar? Também vale filme protagonizado por mulheres. Deixe sua dica nos comentários.

Resumo:

Filme
Ponto Alto
Apenas uma Questão de Amor
Mostrar tanto o lado do gay quanto o da família no processo de aceitação
Shelter
Mostrar que dois caras podem constituir uma família feliz
Weekend
Mostrar que só porque um relacionamento foi curto não significa que não tenha sido verdadeiro
Além da Fronteira
Unir discussão política e religiosa à questão da homossexualidade
Hawaii
Mostrar que lutar contra sentimentos quase sempre é em vão
Garotos
Mostrar a descoberta da sexualidade na adolescência
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
Mostrar que amor é amor independente de barreiras 


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Segura esse forninho!

"Se a vida derrubou o forno na sua cabeça tenha calma, segura esse forninho! Aguente firme, não adianta chorar pedindo pela mãe. Se ele parecer pesado demais não tente ergue-lo muito depressa, acostume-se a seu peso, vá se livrando daquilo aos poucos [...]"



A cena é quase sempre a mesma: você está deitado na rede, tomando um copo de suco e sentindo a brisa balançar seus cabelos enquanto observa uma paisagem bonita.O local? Sua zona de conforto. Mas ai ela, a vida, decide que já está na hora de te fazer se mexer.Te joga da rede, derruba seu suco e deixa de ventilar seu rosto. Aqui não mais, se vira rapaz! Você, cabisbaixo, precisa dar adeus ao bem e bom e migrar rumo a novas terras. E agora?
Ser expulso da zona de conforto é particularmente doloroso para nós, jovens da tal geração Z. Queremos tudo para agora, queremos as coisas antes mesmo de saber que iremos querer. O imediatismo de hoje em dia frequentemente nos leva a duas ações: agir por impulso ou nem agir. Agir por impulso querendo voltar a ficar confortável o mais depressa possível ou não agir esperando que as coisas se resolvam sozinhas. Provavelmente nenhuma das duas coisas vai dar certo.
Se a vida derrubou o forno na sua cabeça tenha calma, segura esse forninho! Aguente firme, não adianta chorar pedindo pela mãe. Se ele parecer pesado demais não tente ergue-lo muito depressa, acostume-se a seu peso, vá se livrando daquilo aos poucos. Pode ser que o segredo esteja na frequência e não na agilidade. Ah, e não espere que alguém vá te ajudar... se ajudarem beleza, mas na verdade é mais provável que saiam por ai espalhando que você fez algo errado. Eita!
A sensação de que está tudo acabado só porque algo acabou pode nos impedir de enxergar que a vida é muito mais que um acontecimento só, seja ele bom ou ruim. Ciclos se abrem na mesma intensidade com que se fecham, isso foge a nosso controle. Se cada ciclo fechado significa um pé na bunda pra fora da nossa zona de conforto que assim seja, a cada forninho derrubado em nossa cabeça nos tornamos mais fortes. 
Não somos mais tão jovens para nos deixar levar pelos sonhos da infância ou pelos delírios da adolescência. Se a vida nos machucar vai doer, sabemos disso. Mas passa. Segura o forninho e não pare de dançar, o importante é não perder o ritmo. "Desce, sobe, empina e rebola, toda delícia, toda gostosa"





Se você é de Marte (ou só anda meio desligado mesmo)
e não entendeu de que diabos de forninho este louco
está falando, talvez esse vídeo te ajude: Segura esse forninho.
Giovana está bem, o forminho seguro e o bordão de 2014 consolidado.