quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O poder do clichê

Hoje é dia de cortar o cabelo e caprichar no penteado. Hoje é dia de deixar a camiseta do meu Timão um pouco de lado e vestir algo mais propício à ocasião. Hoje meu All Star preto surrado vai descansar debaixo da cama, será substituído por aquele sapatênis que só usei uma vez no casamento de um parente. Tudo isso por que hoje fazem dois anos. Hoje fazem dois anos e eu quero que ela saiba o quão feliz estou. Não que ela ligue para tudo isso, mas tenho certeza que reclamar ela não irá. Jogo no Google a palavra "floricultura". Ótimo, tem uma no caminho para a casa dela. Que flores? Rosas. E vermelhas. Rosas vermelhas são infalíveis. Ela uma vez me disse que não gosta de flores, porque é algo que murcha rápido. Mas senti o tom na voz dela. Aquilo não era verdade. Toda mulher gosta de receber rosas. E mesmo que não goste, merece recebê-las. Noite passada discutimos. Motivo besta. Ela acha que não reparo mais nela. Tadinha. Se soubesse as coisas que passam pela minha cabeça toda vez que a vejo perceberia que reparo em cada centímetro dela. Reparo em cada sarda daquelas bochechas. Reparo que ela sempre coloca os cabelos soltos para trás das orelhas mas eles nunca ficam lá. E ela faz de novo. E de novo. E de novo.  Reparo que ela detesta futebol. Mas faz um esforço danado para fingir que gosta. Reparo na forma como ela respeita o amor que tenho pelo meu time. Reparo que ela reparou que estou ficando careca. E não ligou para isso. Reparo que aceitou minhas manias. Até aquelas que eu jamais achei que alguém iria aceitar. Reparo que ela me ama. Reparo que a amo. Puxa, como a amo! Não sou o Gus daquele livro que ela adora. Ma ela é minha Hazel. Sim, eu li. Eu li o livro de capa azul porque ela disse que era uma história linda. E era. Apesar de trágica. 'Eu acredito em amor verdadeiro. Não acho que todo mundo possa continuar tendo dois olhos nem que possa evitar ficar doente, mas todo mundo deveria ter um amor verdadeiro.' Era algo mais ou menos assim que o carinha cego do livro disse. E eu concordo. Ela é meu amor verdadeiro. E eu irei usar todos os clichês disponíveis para um cara apaixonado. Todos eles. Para mostrar a ela que hoje fazem 730 dias desde que eu vi o olhar mais expressivo da minha vida piscar para mim. 730 dias daquela palavra doce de três letras. SIM. E eu estou quase na porta da casa dela para tentar mostrar a ela que aquele sim continua ressoando em minha cabeça. Continua vivo. Verdadeiro. E quero que ela saiba que o próximo SIM que quero ouvir dela será para colocar um anel naquele dedo. Quero que ela saiba de todas essas coisas. Mas sei que não irei conseguir falar tudo isso. Por isso o penteado. Por isso a roupa. Por isso o tênis e as flores. Por isso o trecho do livro de capa azul anotado num pedaço de papel guardado em meu bolso. Para que ela saiba que é a única garota do mundo pela qual estou disposto a fazer isso. Me transformar num clichê. Simplesmente porque não há clichê mais gostoso que estar apaixonado.



Nota do autor:
Primeiramente, perdoem o desenho. Definitivamente não é meu forte. "Segundamente", gostaria de agradecer a todos os leitores, visitantes e curiosos que passaram por esse blog em 2014, vocês são demais. Tenham uma passagem de ano incrível e um 2015 melhor ainda. Espero vê-los todo por aqui ano que vem. Forte abraço, Paulo. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

à deriva

ela parou
no meio da 25 de março
em pleno mês de dezembro
com uma dúzia de sacolas na mão
ela parou
e enquanto as pessoas se moviam
sentiu-se a deriva
num oceano de homo sapiens
pensou em gritar
Ilustração:Paulo Dias
que algo estava errado
e que alguém havia ativado
a função slow motion
mas percebeu
que ninguém a escutava
e que todo esforço gasto em comunicação
era totalmente em vão
durante os segundos que se sucederam
lembrou das aulas na faculdade
e lhe ocorreu que talvez
acabara de ter um inside
seja lá o que estivesse prestes a entender
não teve tempo de anotar
pois logo em seguida
seu filme se transformou
numa imensa tela preta
no dia seguinte
viera a descobrir
que grandes descobertas
nunca fazem questão
de chegadas dramáticas
e que seu quase primeiro inside
também responde pelo nome
de hipotensão.