domingo, 22 de fevereiro de 2015

A forma da loucura


Eu sequer deveria ter saído de casa. Deveria ter ouvido quando Alice disse que eu precisava descansar. Deveria ter colocado a playlist nº 3 pra tocar. E ter adormecido.
Eu não deveria ter deixado que minhas pernas me levassem onde estavam levando. Não era uma boa ideia. Nada de bom poderia acontecer. Eu não deveria ter parado na fila. Nem acendido o cigarro. A porra do cigarro. Mas você me conhece. Não sei a hora de parar.
Foto: Paulo Dias
Eu não deveria ter entrado. Nem aceitado o primeiro gole. Não deveria ter tirado a camisa. Nem virado o segundo gole. Nem o segundo cigarro. Nem o terceiro... 
Não deveria ter permanecido na pista quando aquela música começou a tocar. Madness. Era ensurdecedor. E de repente tudo estava girando. E as pessoas ao meu redor se moviam em câmera lenta. E ele estava lá, lá na frente. Eu não deveria ter me aproximado. Sabia que não poderia ter me aproximado. Mas você me conhece. Não sei quando parar.
Não deveria ter deixado que ele me visse. Que também se aproximasse. Que me tocasse. Era tóxico. Mais do que qualquer cigarro tragado ou bebida que eu pudesse tomar. Porra! Eu não deveria ter deixado. Now, I have finally seen the light. Deixado que ele se aproximasse. And I have finally realized. Que chegasse tão perto. What you need. Lábios sobre lábios. I need your love. Corpo sobre corpo. Sozinhos na multidão. Madness tocando. Por um segundo, uma eterna sequencia de milésimos, foi bom. 
Até que a música acabou. Até que a combinação drinks-cigarrettes parou de fazer efeito. Até que percebi estar dançando sozinho. E beijando os lábios macios da loucura. Eram doces.
E eu não deveria ter ficado parado lá. No meio daquela gente. Exausto. Doído. Mas tudo o que consegui fazer foi chorar. Copiosamente. Vergonhosamente. Chorar pela mediocridade de ver no que você havia me transformado. E sequer se dava conta.
Quando acabou. Quando finalmente não havia mais o que chorar. Quando não fazia mais sentido beber. Nem fumar. Nem dançar. Foi que percebi. Percebi o porque de meu corpo me guiar até aquele lugar. O porque da música. Justo aquela música. Entendi o porquê daquilo tudo. Havia chegado o momento. Era hora de parar.
E desde aquele dia Madness nunca mais tocou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Análise: Big Eyes (Grandes Olhos)

Há sempre muita expectativa por trás de um longa de Tim Burton. O diretor norte-americano conquistou uma legião mundo fora por seus filmes repletos de personagens excêntricos e um toque sombrio. Mas esqueça boa parte do que você pensa que sabe sobre Burton, pois em seu mais recente filme “Big Eyes” (Grandes Olhos), vemos um diretor que topou o desafio de fazer um filme... normal.
A história em questão é o drama biográfico da pintora Margaret Keane, seu marido Walter Keane e a polêmica que envolveu os dois. Margaret é uma das maiores pintoras americanas, ganhou fama na década de 60 por seus quadros de crianças pobres, frágeis e com gigantes olhares tristes. Segundo a história oficial, Walter fez fama e fortuna assinando os quadros da esposa como se fossem seus. Após terminar o casamento, Margaret resolve denunciar o marido e os dois travam uma intensa luta
Foto: Divulgação
 judicial que acaba consagrando Marg como a verdadeira autora dos quadros de Big Eyes. História real que daria um belo filme, não acham? Burton e os roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski também acharam, e fizeram!
Mas não é porque trata-se de um filme biográfico que Burton ocultou totalmente suas características como diretor, pelo contrário, muitas ainda estão lá, mesmo que mais sutis. Vemos na personagem de Margareth, a típica protagonista frágil que tem uma visão muito particular das coisas. Por que pintar retratos de crianças com olhos tão grandes? "Porque os olhos são a janela da alma", responde a personagem. E porque ela via neles a força de um discurso que palavra nenhuma daria conta de transmitir. Sem contar que o diretor aproveita a personagem para mostrar um pouquinho do que era ser uma mulher divorciada na metade do século passado, e como tais mulheres eram vistas pela sociedade. Amy Adams dá o tom exato ao personagem. Aquela voz suave, aqueles olhos frágeis e aquele sorriso encantador constroem uma Margaret Keane pela qual o expectador se dispõe a torcer.  Por outro lado, a atriz não escorrega ao tirar a personagem do perfil de boa moça e transformá-la numa mulher que precisa lutar pelo que acredita.
Por outro lado, o charme, lábia e jeito expansivo que Christoph Waltz entrega a seu Walter Keane faz dele a melhor coisa de Big Eyes em diversos momentos do filme. O embate entre a fragilidade de Amy/Margaret versus a expansividade de Christoph/Walter vão fazendo com que o filme, inicialmente focado no nascimento do relacionamento do casal, tome os contornos de um drama.
Tudo isso nos é entregue regado a uma fotografia deslumbrante,  direção de arte certeira e trilha sonora agradável. Trilha com destaque merecido à Lana del Rey e sua música tema do filme que, apesar de tocar num única cena, aparece no momento em que é necessário.
Big Eyes não é o melhor filme de Tim Burton, talvez porque a vida real não tenha permitido que o diretor fizesse o que sabe fazer de melhor: fantasiar. Mas ainda assim é - sem dúvidas - um filme que merece ser apreciado.

Filme: Big Eyes (Grandes Olhos) EUA/2015
Diretor: Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Danny Huston, Terence Stamp
106 minutos.
Avaliação: Bom