domingo, 7 de junho de 2015

Lidando com o abstrato

Duvivier certa vez disse que “ao se deparar com a coisa mais bonita do mundo, certifique-se de que é real”. Talvez não tenha sido exatamente isso que ele disse, mas foi algo parecido...

Nasceu sem que eu percebesse. E foi assim, sem eu me dar conta, que cresceu mais e mais. Chegou um momento – e ele sempre chega – que não dava mais para fingir que não existia. Decidi parar de ignorar. Passei a pensar em minha coisa mais bonita do mundo todo o tempo. Falava sobre ela às pessoas, orgulhoso, como um jovem apaixonado. Mas nunca a mostrei, de fato, a alguém. Era MINHA coisa mais bonita. Não me sentia preparado para mostrá-la a você. A ninguém.
Por um tempo minha coisa mais bonita do mundo fez jus ao nome...
Resplandecia.
Reverberava.
Inspirava.
Trazia cor aos meus dias. Me fazia ver algo bom até nas músicas depressivas, nos filmes ruins, nos livros mal escritos e nos dias chuvosos. Tudo era claro como a luz do sol. Tudo era gostoso como bolo de fubá. Tudo era aconchegante como um abraço. Até aquele dia.
Não sei explicar como essas coisas acontecem. Num instante está tudo bem e no outro, pá! não está mais.
Eu olhava para minha coisa mais bonita do mundo e sentia que ela estava esmaecendo, tal qual tatuagem com o passar do tempo. Foi desesperador. A gente nunca quer desapegar do que já aprendeu a conviver. Eu não queria ver minha coisa mais bonita do mundo sumir, assim, na minha frente, e ficar de braços cruzados.
Mostrei ela. Numa atitude de desespero mostrei a todos. Mostrei a você. E supliquei “por favor, me ajudem!”. Mas ninguém respondeu. Ninguém além de mim conseguia ver a coisa mais bonita do mundo. Nem você.
Ela se foi. Naquela tarde de outono do dia 07 de junho, quando a última flor do Jacarandá caiu no quintal, ela se foi. E tudo ficou cinza.
Durante muito tempo fiz do silêncio refúgio. Enquanto eu chorava pelo fim, as pessoas ao meu redor questionavam o porquê das minhas lágrimas. Não queria explicar. Não atendi telefones, não respondi e-mails, parei de abrir a porta. Minha vontade era de sair pelas ruas cobertas de geada e gritar “Ninguém ajudou a salvá-la! A culpa também é de vocês!”.
Mas não fiz isso. A culpa não era deles.
E assim passei aquele inverno.
Ilustração: Ana Oliveira
O coração havia se transformado num campo árido onde nada brotava. O frio parou de invadir minha casa quando decidi não abrir mais as janelas. Dormi. Por um longo tempo.
Não adianta apressar as coisas. Sentimentos são temperamentais. O abstrato é indecifrável.
Foram necessários muitos Malboros tragados e doses de Martini goela abaixo para que algo acontecesse aqui dentro. O arrastar das chinelas pelos corredores vazios fazia parte do rito. Aquele meu pijama preto terminava de dar o tom fúnebre. Foi o ápice do drama. Sim, era drama. Sempre foi. Sempre fui.
Mas acabou. Como quem um dia acorda e percebe que não há mais o que chorar. Como quem um dia entende que...
a vida continua.
Costurei os retalhos dos sentimentos que sobraram e fiz deles uma colcha para as noites frias. Arreganhei as cortinas para que a luz entrasse. Abri as janelas da alma e os ventos fortes do sul sopraram. Começou a ventilar.
O sopro gélido levou consigo as cinzas que haviam pousado sobre a mobília, mas o que restou da minha coisa mais bonita permaneceu. Tudo terminou de maneira desastrosa. Eu sei. Mas agora está bem, estou bem. Finalmente consigo ver o lado bom disso. Sim. Voltei a ver a luz.
Eu sei que nunca mais a terei novamente. E sei também que as coisas não acontecem duas vezes da mesma maneira. Foi um erro meu não duvidar da veracidade. Mas nesse momento não quero questionar se minha coisa mais bonita do mundo foi ou não real. Isso não mudaria nada.
Não sei explicar como essas coisas acontecem. O abstrato é indecifrável. Num instante está tudo ruim e no outro pá! não está mais. Tenho uma capacidade absurdamente grande de lidar com o frio. Assim como meu Jacarandá, que está mais florido do que nunca. Ciclos da natureza.
Minha coisa mais bonita do mundo se foi. Mas, como tudo na vida, deixou marcas e ensinamentos. É um constante aprendizado. Continuarei caminhando. Nem que seja para descobrir coisas que, de certa forma, decepcionam. Assim como o cigarro tragado. Assim como a garrafa vazia. O amor também deixa consequências. Também acaba.
Lidemos com isso.